Archive for janeiro \07\UTC 2010

uma única luz.

janeiro 7, 2010

Em uma noite, cortaram minha luz. Como em minha rua não havia iluminação, nada clareava minha casa que foi preenchida por uma completa escuridão. Então, espalhei velas para todos os cantos, pois me pareciam a única solução para que eu, pelo menos, não me sentisse perdida. A crença que as velas me tirariam do escuro era tão falsa que me dava nojo, mas mesmo assim eu acreditei, falsamente.
Ao passar da noite, tão longa, as velas foram se acabando e o fato delas não serem eternas me assustava. Então a luz me acabaria? Pensava..
Cuidei para que elas não acabassem, por mais que falsamente me pareciam eternas, com elas poderia enxergar e não pisaria nos cacos de vidro do vaso que, por descuido, deixei cair e preencher quase todos os cantos de perigo. A noite era infinita. Eu angustiada prevendo o fim, deixei-me estar, ainda, a acreditar no eterno. Acabou uma vela, duas, até que me sobrou apenas uma, inteira, grande e preciosa. Uma salvação.
Mas a vida me é tão cruel..
Na madrugada, ainda acordada senti uma alegria tão bonita que exigi que todos os meus dias tivessem aquela sensação. A vela no meu colo brilhava com uma intensidade única, quando a olhei pensei que ela nunca acabaria. Com aquela felicidade mais bonita e aquela exaltação tão necessária, respirei vida, enfim! Uma respiração misturada de alívio em fusão com aquela luz, por um momento, me garantiram a felicidade eterna, afinal, eu tinha uma luz, uma única luz. Por um momento, me senti viva. Ah, me queria para sempre assim. A luz me trouxera vida, eu amava aquela luz, uma única coisa para chamar de amor.

Em mim, essa felicidade durou pouco. Aquela respiração tão cheia de significado, em instantes que foram tão preciosos para mim, chegou até a vela e a apagou com uma dureza jamais vista. Catástrofe. Acabara tudo, então.

Nunca mais exigi o eterno.

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rugas.

janeiro 5, 2010

E o que me restou do ontem, foi esse coração constantemente dolorido, essa face enrugada de tanto olhar seriamente para tudo, esses olhos que eu nem sei de quem são. Enquanto eu me preocupo com minhas rugas cultivadas pela dureza, meu coração fica cada vez mais dolorido, até atingir todo o meu corpo e eu me tornar um ser imóvel, apenas com o olhar sério para todos os lados.
Alguém me diz que se eu continuar com essa feição, vou ficar velha rápido e eu penso que já passei dessa fase há um tempo e estou cada vez mais perto da morte. Não necessariamente carnal, mas de espírito. Não sei se terei outra vida, mas essa palavra hoje me soa tão desconhecida que se em mim ressurgisse, eu perderia todo o controle, de novo.
Por outro lado, acordar amanhã com menos de mim e mais da outra, me dá um novo sentido. Então eu perderei tudo o que me magoa hoje, alcançarei tudo o que me fará bem, recomeçarei aquilo que deixei por estar e virei com outro rosto, sem rugas.
Porém, nem tudo que me incomoda deixará de existir, o coração dolorido é o legado de uma vida que tanto me escorraçou, tanto me exigiu e eu envolvida pela tristeza de sempre, deixei-me estar assim, desfalecida.

Que eu morra para sempre, então, porque não aguento mais essa morte diária, essa morte vivida.